Deslizantes

As pinturas de Ricardo Pistola estruturam-se mediante uma composição minimal, que se sedimenta numa invariante: fundos lisos e figurações que se destacam num primeiro plano.
Inscrevendo-se, assim, numa longa tradição pictórica que problematiza a questão figura/fundo, o artista mantém, no entanto, uma ambiguidade central nos seus trabalhos que se prende com a densidade ou o peso específico das figurações que imediatamente reclamam a atenção do espectador.
Definidas a partir de um ou mais ou menos intrincado jogo de linhas que delimitam entidades tridimensionais, também elas mais ou menos intrincadas, estas figurações gravitam (ou repousam) no espaço da tela de modo diferenciado.
Ou seja, se nalguns casos parecem irromper dos fundos com uma força telúrica, noutros detêm uma leveza que as remete para um estado flutuante e etéreo.

Por outro lado, nalguns casos estas entidades remetem para reminiscências antropomórficas, como se de máscaras se tratassem, noutros evocam estratificações para-arqueológicas de locais indeterminados.
Este movimento pendular entre sugestões de um cenário improvável e de personagens tipologicamente deslizantes, comunga, contudo, de um mesmo pulsar vitalista.

Aquilo que resulta desta ambiguidade poder-se-ia também caracterizar como a capacidade única que estas pinturas demonstram de referenciar um estado transitório, revelando no plano pictórico um potencial estado de mutação continuada.
E este é o tempo único da pintura: auto-referencial no contexto da sua própria história, e gerador de um intervalo perceptivo que, no momento da recepção, antecede e prevalece sobre a interpretação.

Nesse sentido, o carácter serial das obras de Ricardo Pistola atira a sua recepção para o detalhe das figuras num processo desconstrutivo, não só da própria forma, como do próprio sentido, na exacta medida em que fogem a qualquer possibilidade de desocultação iconográfica.

Esta aspereza voluntária acaba por reiterar a determinação do artista num caminho que o obriga a trabalhar a pintura exclusivamente a partir do seu interior, sem qualquer tipo de contextualização lateral: e este é um exercício de uma exigência singular, particularmente raro numa altura em que as práticas correntes parecem indicar o contrário.

Miguel von Hafe Pérez