_fracção
Sob a acção insidiosa da modorra o tempo fracciona-se. No bar onde se encontra, Carlos consome a sua prĂłpria imagem, esgotados os mecanismos de fuga, vive este encontro como uma experiĂŞncia de alteridade. Isola-se olhando em frente, por cima da mesa onde se cruzam as mĂŁos de um casal de namorados pode ver-se a ele prĂłprio ao fundo num espelho de parede partido radialmente, como uma teia de aranha. No centro do espelho o seu rosto divide-se e repete-se em todos os fragmentos. Para ver melhor, Carlos procura e acende um cigarro; move o braço teatralmente e deixa o fumo escapar pela boca e pelas narinas devagar, apreciando a ideia de ter uma multidĂŁo de fumadores imitando-o do outro lado da sala. Abana a cabeça ao som de um ritmo interno enquanto imagina as feridas do espelho gravadas na cara, um corpo construĂdo de cacos, fragmentos quanto mais pequenos quanto mais prĂłximos do centro, cada vez mais pequenos e concentrados, criando um espaço onde nĂŁo existe reflexo, mas apenas fractura. Move o braço para apagar o cigarro enquanto trauteia uma canção – ta tete tate ta tete – e, apoiando o polegar e o Ăndex no cinzeiro, aproveita o gesto para se erguer – vou Ă casa de banho. DistraĂdo pela sua imagem no espelho Carlos deixa-se enganar pela inversĂŁo da sala e tropeça na ideia do seu corpo fragmentado, espalhando o seu desarranjo na confusĂŁo do chĂŁo. Cai pelas pernas, que abandonam a coerĂŞncia do conjunto e Ă© salvo pelos braços que lhe amparam a queda. O universo estala – criam-se dois mundos e dois tempos – o mundo divide-se enquanto no salĂŁo do bar crepita uma fenda que fere em todos um silĂŞncio. O casal de namorados desabotoa as mĂŁos da confusĂŁo dos dedos, deixando-as inertes sobre a mesa entre o desmazelo de papĂ©is amarrotados e copos ruborizados. O empregado reprova Carlos enquanto se dirige calmo ao lugar da cena “Estás bem?”.
Ele vĂŞ tudo do outro lado do espelho, na riqueza da sua multiplicidade, Carlos vĂŞ o homem que o transporta assustado pelo que lhe diz a sua imagem. Observa-o tentar a fuga e Ă© ele que lhe amarra as pernas, condenando-o Ă humilhação do chĂŁo. Irrita-o o tilintar dos risos dos namorados e, ignorando a mĂŁo que lhe oferece o empregado, olha-os agressivo a partir do espelho. Desviando os olhares o casal faz quatro mĂŁos procurarem-se cegas, chocando com tudo sobre o tampo da mesa. Quando se encontram apertam-se, tentam enfiar-se umas nas outras, como se procurassem luvas. Evitando a personagem no reflexo do espelho, voltam a dirigir o olhar ao homem caĂdo, que aceita agora a ajuda e regressa dolorosamente Ă verticalidade. Carlos explica-se – faltou-me a ilusĂŁo da integridade – e refugia-se de novo na viagem atĂ© Ă casa de banho. Cruza o bar evitando o homem do espelho, mas nĂŁo pode deixar de imaginar o seu corpo rasgando-se em mĂşltiplas variações enquanto arrasta o seu reflexo para fora da sala.
No WC encosta-se Ă solidĂŁo do mictĂłrio, agrada-o que o seu corpo corrobore a sua estratĂ©gia de fuga: sente um trĂ©mulo arrepio nas costas, relaxa no cumprimento da função – unidade, finalmente. O alĂvio Ă© fugaz, no mesmo instante compreende a emboscada, apertando as calças apercebe-se de um duplo brilhante espiando-o por trás do lavatĂłrio – quem sou eu, onde está o meu centro? – de olhos baixos une as mĂŁos sob o jacto de água, prestando homenagem a esta divergĂŞncia. É sĂł enquanto as seca – lavo daqui as minhas mĂŁos – que ousa o confronto, entregando-se frontalmente ao consumo da sua imagem. NĂŁo compreende porquĂŞ, mas logo ali recebe o estalo da náusea – aahh – todas as ideias recuam para a parte escura da cabeça, velozes e imperceptĂveis, retrocedem em direcção ao obscuro como mĂşltiplas aranhas. Carlos fica vazio – nada – nĂŁo há senĂŁo um trejeito, uma leve quebra na fluidez do movimento, invisĂvel mesmo a um olhar atento, no momento em que o corpo deixa de ser controlado pela ideia e assume, automático, adirecção e equilĂbrio doconjunto. Calmo e passivo apercebe-se da cena; como se habitasse agora um terceiro espelho, vĂŞ dois corpos reflectidos congelados num cruzamento de olhares. RĂgido, o mundo roda em torno daquele eixo, Carlos compreende apenas parcialmente a violĂŞncia do momento – onde estou eu? – mas sente uma pulsĂŁo que o obriga a tomar aqueles corpos para si. Louco – pensa – louco, sĂł posso estar louco – e ávido abre-os, como se fossem peluches retira-lhes o estofo. Instintivamente, sem que se aperceba de uma Ăşnica ideia cruzando o espaço que acredita consciente, vĂŞ, escolhe e separa, reorganizando rapidamente o interior dos corpos a partir do que lhe oferece de inteligĂvel a massa amorfa que manipula.
Carlos Ă© acordado daquele transe inexplicável por alguĂ©m que disputa com ele o acesso ao lavatĂłrio. Embaraçado, finge acabar de secar as mĂŁos – nĂŁo estou em mim – e abandona cĂşmplice a sua imagem no espelho – qual Ă© o teu nome? Cruza a penumbra do bar olhando de soslaio a superfĂcie onde se descobriu multiplicado – eu nĂŁo sou em mim – e sai para a integridade da rua. Caminha atĂ© casa sempre evitando os passeios e de olhos postos no chĂŁo, sentindo-se seguido por uma multidĂŁo silenciosa que, saltando de reflexo em reflexo, montra em montra, o acompanhou atĂ© casa e atĂ© Ă cama, para esperar o sono e tomar Carlos pelo territĂłrio dos sonhos onde, laboriosos mas ineficientes, mais uma vez tentaram o concerto da mentira que obriga o corpo a andar direito – unidade, finalmente.